Crónica da Incrível História do Patinho

CRÓNICA DA INCRÍVEL HISTÓRIA DO PATINHO - Sistema Anura
Muita gente gosta de astrologia. Principalmente quando ela é apresentada de uma forma divertida.
É o caso do livro de Vitorino de Sousa — Crónica da Incrível História do Patinho.
Trata-se de um pato que nasceu 12 vezes, sempre de acordo com as características dos signos do zodíaco.
Os nomes das suas 12 reencarnações?

1. Patinho Pioneiro/Carneiro;
2. Patinha Serena/Touro;
3. Patinho Tagarela/Gémeos;
4. Patinha Maternal/Caranguejo;
5. Patinho Vaidoso/Leão;
6. Patinha Picuinhas/Virgem;
7.  Patinho Sensato/Balança;
8. Patinha Viperina/Escorpião;
9. Patinho Grandalhão/Sagitário;
10. Patinha Friorenta/Capricórnio;
11. Patinho Imprevisível/Aquário;
12. Patinha Iluminada/Peixes.
A Crónica da Incrível História do Patinho passa-se numa quinta (junto a um lago com uma pequena ilha), onde também vivem o Cão Sarnento, o Gatinho Rom-Rom, o Peru Lingrinhas, a Gansa Pestanuda, o Pintainho Saranico, o Porquinho Gorducho, o Pónei Pimpolho e, nos arredores, o Mocho Sabichão.
Claro que o Pai Pato e a Mãe Pata iam dando em doidos com os disparates dos seus Patinhos que, afinal, era sempre o mesmo só que com manias diferentes!
Se quiser sentir o tom da Crónica da Incrível História do Patinho, leia abaixo dois pequenos excertos dos capítulos referentes à Patinha Serena e ao Patinho Tagarela, que correspondem, respetivamente, a Touro e a Gémeos, os dois signos que vigoram durante o mês de maio.
CRÓNICA DA INCRÍVEL HISTÓRIA DO PATINHO - Sistema Anura

A PATINHA SERENA

— Mas que vais tu fazer à ilha? — quis saber o Pai Pato, apesar de já conhecer os intentos da filha. Não sabes o que aconteceu ao teu irmão?
— Claro que sei, pai. Mas acontece que decidi construir esse abrigo e nada me fará desistir dessa tarefa. Estou determinada a isso, pois é grande a minha convicção. Não duvidem que, em breve, irão dispor de um abrigo na ilha.
Com esta decisão, além de prestar uma homenagem ao meu irmão Pioneiro, dou um passo importante ao encontro do que poderei vir a ser.
…Ó pai, por que está a olhar p’ra mim com essa cara de espanto? Disse algum disparate?
— Não, não, filha! Mas explica lá o que queres dizer com “ir ao encontro do que poderei vir a ser”?
— Então? Não tem nada de complicado. A minha tendência natural é para estabilizar o que me rodeia. E construir, também. Assim, ficarei mais descansada e em paz comigo mesma, se souber que algo de sólido fica a assinalar a minha passagem por esta terra.
— Ai, filha — atalhou a mãe — acho que fazes muito bem!
— Pois eu, que sou teu pai, não vejo qual seja a vantagem!
— Claro! Tinha de ser! – interrompeu a Mãe Pata. Tinhas de estar contra mim, contra a tua própria companheira.
— Contra ti? Mas, ó filha, já não tenho direito a opinião própria? Eu só disse que é escusado a gente preocupar-se com essa coisa de marcarmos a nossa passagem por este mundo. … Achas isso grave?
— Não acho, nem deixo de achar! O que eu penso é que a nossa filha faz muito bem em construir o abrigo. Assim, poderemos ir lá passar os fins-de-semana.
— Passar os fins-de-semana? — disse o Pai Pato imensamente surpreendido. Tu tens cada uma! Realmente, tu tens cada uma! Já te esqueceste do aconteceu naquela ilha?
— Claro que não!
— Ah! Não esqueceste! Olha que não parece! É preciso ter muito descaramento p’ra te ires pôr de papo pró ar e fazer piqueniques no local onde o nosso filho morreu! Palavra d’honra!
— E o qu’é que uma coisa tem a ver com a outra? Qual é o mal? – quis saber a Mãe Pata, prestes a perder o controle.
— Qual é o mal? Tens o desplante de perguntar qual é o mal?
Perante este quadro familiar muito pouco edificante, a Patinha Serena resolveu intervir:
— Fazem-me um favor? Acalmem-se lá e acabem com esse disparate de discussão. Cá por mim, tanto me faz que, depois de construir o abrigo, vocês passem lá os fim-de-semana ou se esqueçam que ele existe.
Eu tenho de erguer esse abrigo e é isso mesmo que vou fazer…
E agora, se me derem licença, gostaria de me retirar para inspecionar o local e começar a tratar da planta do abrigo…

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O PATINHO TAGARELA

Quando chegaram à praia já lá estava o seu inseparável “irmão” Pintainho Saranico, o Porquinho Gorducho e o Pónei Pimpolho, os quais tinham sido convidados para o passeio à ilha. O ambiente logo desanuviou um pouco, e não tardou a que a boa disposição tomasse conta do grupo. Como nem todos voavam, decidiram ir a nado. Quando chegaram à ilha, riram-se imenso por causa das dificuldades que o Porquinho Gorducho sentira para fazer a travessia: apesar da calmaria, o pobre ia-se afogando. Ao invés, o Pónei Pimpolho, com a cabecinha sempre no ar, atravessara sem grandes dificuldades; o Pintainho Saranico também não teve problemas. Então, o Patinho Tagarela logo quis querer conhecer o lugar onde o Pioneiro tivera o acidente. Perante o cenário do crime, perguntou de que lado aparecera o barco com o caçador, a que horas é que se dera a ocorrência e em que direção soprava o vento, na altura. Depois de saber as respostas possíveis a estas questões todas, refletiu durante uns instantes e concluiu:
— Na verdade, foi uma grave imprevidência da parte do meu irmão. Se ele tivesse desenvolvido a capacidade de estar atento ao que o rodeava, nada teria acontecido.
… E calou-se, observando atentamente o efeito que aquele discurso produzira na audiência. É claro que toda a gente concordou, especialmente o Porquinho Gorducho que, entretanto, se deitara a descansar das canseiras da travessia. Depois desta demonstração de concordância com o seu raciocínio, passou a sentir-se no centro das atenções e ficou à espera de nova oportunidade para reforçar a impressão que causara nos pais e amigos. Deram mais umas voltas e chegaram finalmente ao abrigo. Aí, entusiasmado com os resultados da experiência anterior, procurou inteirar-se de como fizera a Serena para erguer tamanha construção. Dentro da medida dos possíveis, revelaram-lhe a técnica utilizada e o tempo gasto na obra, ressaltando quanta determinação fora precisa para levar a cabo um empreendimento daquela envergadura, pois tivera de usar o bico para fazer rebolar as pedras até ao local das obras. O Patinho Tagarela achou tudo aquilo notável. Então, excitado com a nova oportunidade de tecer algumas considerações, subiu a uma pequena elevação, pigarreou e começou a falar:
— Caros amigos, antes de mais nada, permitam-me que lhes agradeça a gentileza de terem acedido ao meu convite de visitar esta ilha. É com enorme satisfação que estou perante vós, e espero que sejam uma plateia atenta e interessada por aquilo que tenho p’ra vos dizer. As palavras que trago preparadas são insuficientes p’ra se constituírem naquilo a que se chama um discurso. Contudo, elas brotam do mais fundo da minha sensibilidade…
— Despacha-te!
— Deixem-me, então, comunicar-lhes o quanto fico comovido, quando constato que os meus irmãos foram capazes de viver as suas características predominantes. Um, adorava explorar e explorou; a outra, amava o bosque e tudo fez p’ra estar sempre com ele. Pagaram, é certo, com a vida. Apesar da dor causada pelo seu desaparecimento prematuro, não devemos censurá-los. Em vez disso, louvemos a coragem de terem sido como foram. De facto…
E lá continuou a discorrer acerca das vantagens de que cada um pode beneficiar, quando se esforça por desenvolver as suas potencialidades. Já o Porquinho Gorducho bocejava com fome e enfado, ainda o Patinho Tagarela – que estava a gostar de se ouvir – arengava sobre o assunto…

Crónica da Incrível História do Patinho
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Se quer ouvir o som de um pato… também é possível…